O (novo) papel do professor de Educação Especial
OS PONTOS E VÍRGULAS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA |Alda Angelina
Pereira dos Santos
Após a tão falada “reorganização” que o Decreto-Lei nº 54 de
2018 (com as alterações introduzidas pela Lei nº 116/2019 de 13 de setembro)
veio trazer ao mundo das escolas, com a introdução do paradigma da educação
inclusiva, não seria de admirar que o também papel de professores titulares de
turma, diretores de turma, educadores de infância bem como dos professores de
Educação Especial (PEE) fosse questionado e trouxesse dúvidas, receios e
confusão na definição das suas funções.
É natural, toda a novidade acarreta consigo algumas questões
que, por vezes, só depois de se testar e colocar em prática o modelo, serão
possíveis esclarecer.
Recuando um pouco a um passado ainda recente, o professor de
Educação Especial surgiu na docência com o objetivo de facilitar a “integração”
de alunos com condições de deficiência.
Este profissional era então reconhecido, pelos demais
docentes, como alguém que possuía um conjunto de conhecimentos e competências
que ajudariam a compreender melhor a complexidade do processo de educar alunos
com condições de deficiência em escolas regulares.
Esta visão alterou-se sensivelmente quando o paradigma
educativo passou de “integração” para “inclusão”, deixando de se reportar
unicamente a alunos com condições de deficiência, para abranger todos os alunos
que possam experimentar dificuldades em acompanhar os demais colegas nas
atividades curriculares e escolares.
Nesta altura, surgem as primeiras dúvidas sobre quais as
verdadeiras funções do professor de Educação Especial num tempo de Escola
Inclusiva, mas rapidamente se voltaram a direcionar todos os alunos com
necessidades educativas especiais para o professor de Educação Especial, como
se estes deixassem de pertencer à escola e passassem a pertencer ao PEE.
Expressões como “os teus alunos”, “os teus meninos” ou “este
aluno é para ti” são expressões equivocadas e que repetidamente têm sido
rejeitadas pelos PEE, mas continuam a ser muito frequentes.
Atualmente, com o mais recente paradigma de Escola Inclusiva
(alterado pela Lei já referida), o papel do professor de Educação Especial
volta a suscitar dúvidas, mas desta vez surge muito associado ao professor
titular de turma, diretor de turma ou educador de infância, já que zonas de
atuação dos anteriormente elencados estão cada vez mais explícitas, deixando
pouco espaço para a ideia de que existem “meninos da Educação Especial” que
pertencem ao professore de Educação Especial.
Cabe assim ao professor titular de turma, ao educador de
infância, ou diretor de turma, consoante o caso, a coordenação da implementação
das medidas previstas no relatório técnico-pedagógico, este sim feito com a
participação do PEE.
Olhemos então para o PEE como um profissional especializado
do qual se espera uma intervenção também ela especializada e não um trabalho
generalista e indiferenciado.
Assim, não é de todo esperado que o PEE seja o único
responsável pelas medidas universais, seletivas ou adicionais previstas no
Decreto-Lei nº 54.
Fica mais claro, então, que a intervenção do professor de
Educação Especial assenta em duas vertentes:
Uma de trabalho colaborativo com os diferentes
intervenientes no processo educativo dos alunos e outra relativa ao apoio
direto prestado aos alunos que terá, sempre um caráter complementar ao trabalho
desenvolvido em sala de aula pelos restantes professores.
As funções do PEE passam ainda pela sensibilização da
comunidade educativa para a educação inclusiva, bem como prestar aconselhamento
aos restantes docentes na implementação de práticas pedagógicas inclusivas,
assegurando que a escola, de um modo geral, adota comportamentos facilitadores
da inclusão.
É ainda da competência do PEE a dinamização de espaços de
reflexão e formação para toda a comunidade educativa.
Por outro lado os docentes devem, durante a sua prática
pedagógica, solicitar apoio do PEE, designadamente na seleção das estratégias
mais adequadas para a intervenção com cada aluno.
O PEE deve, pois, ser entendido como um profissional
especializado em aprendizagem que, por um lado, trabalha numa dimensão de
potenciar a aprendizagem de todos, através da conceção de modelos, de
estratégias e da mobilização de instrumentos de gestão curricular e, por outro,
trabalha a consultoria e a supervisão da intervenção educativa, dinamizando,
apoiando e articulando as políticas de inclusão desenvolvidas pelas escolas.
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