sábado, 20 de setembro de 2025

A Base e a Educação Especial (na minha visão

1.⁰ dia como professor de Educação Especial....

Fiz questão de estar e de me apresentar e apresentar a Educação Especial, em cada sala de Jardim de Infância do JI Dr. João dos Santos, Jardim de Infância da EB1/JI Porto Pinheiro e turmas do 1.⁰ Ciclo, nlem cada reunião de início de ano letivo.

Falar do 1.º Ciclo do Ensino Básico é falar da raiz, da semente, da base de tudo. É ali que se lançam os alicerces daquilo que os alunos serão, não apenas no futuro académico, mas sobretudo no futuro humano. 

Ser professor do 1.º Ciclo não é ensinar apenas a ler, a escrever e a contar. É ensinar a ser. É ensinar a conviver, a partilhar, a respeitar. É ser a primeira referência fora da família, e muitas vezes, ser também a família que falta.

Durante 23 anos vivi essa realidade (por paixão, por escolha): salas cheias, com vinte, vinte e cinco crianças, cada uma com uma história única, com sonhos, dificuldades, feridas invisíveis e esperanças frágeis. Entre elas, algumas com necessidades educativas especiais, outras com dificuldades que não cabem em nenhum relatório técnico: fome, violência, ausência de afeto, lares partidos, mochilas vazias de material mas pesadas de problemas. E no meio de tudo isto, ainda os que pedem mais, que querem ir à frente, que não aceitam esperar pelo ritmo dos outros. Cada criança exige um olhar, um gesto, uma palavra diferente.

O professor é chamado a ser tudo: educador, psicólogo, mediador, protetor, criador de mundos que motivem e incluam. É preparar aulas que não sejam apenas exercícios repetidos de manuais, mas espaços vivos, onde cada aluno se sinta capaz, envolvido e feliz. É transformar cinco horas diárias, sem pausas para respirar, em experiências de descoberta, solidariedade e inclusão. É manter o barco em movimento, mesmo quando o mar é revolto e parece impossível remar sozinho.

E no entanto, há ainda quem veja o 1.º Ciclo como algo pequeno, sem importância, sem a exigência dos outros níveis de ensino. Quem assim pensa, nunca viveu um dia inteiro no corpo e no coração de um professor de 1.º Ciclo. Nunca sentiu a pressão dos pais que delegam a função de educar, exigindo perfeição, sem perceber que a educação é, antes de tudo, partilha de responsabilidades. Nunca sentiu o peso de garantir que nenhum aluno fica sem comer, que nenhum fica para trás, que todos têm o seu lugar.

É precisamente por isso que é fundamental que os professores do 2.º, 3.º Ciclo e do Secundário, bem como as direções das escolas, compreendam esta realidade. Os alunos que lhes chegam trazem gravado tudo o que viveram (ou não viveram) no 1.º Ciclo: os afetos, os estímulos, as feridas, as oportunidades, as ausências. Quem recebe um adolescente no 3.º Ciclo precisa de saber que aquele jovem começou por ser uma criança de seis anos que, todos os dias, precisou que alguém acreditasse nele. O que acontece no 1.º Ciclo nunca fica apenas no 1.º Ciclo, acompanha o aluno por toda a vida.

Foi essa vivência intensa que me conduziu à Educação Especial. Porque se no 1.º Ciclo já se aprende a valorizar as diferenças, na Educação Especial essa valorização torna-se missão. Não é um trabalho de "apoio", nem de explicação. É um trabalho de diferença na diferença: desenhar percursos únicos, criar estratégias, abrir atalhos que permitam que cada aluno, dentro das suas possibilidades, vá mais longe do que iria sozinho.

É urgente que se perceba que um aluno com necessidades educativas especiais não será “igual aos outros” só porque tem um professor de Educação Especial. Não há magia que faça ler quem não consegue, nem escrever quem não domina ainda o gesto. O que há é um caminho alternativo, com medidas definidas, que precisam de ser respeitadas, aplicadas, levadas a sério por todos os professores e pela escola como um todo.

A Educação Especial não substitui o titular, não corrige lacunas sozinha. Ela orienta, acompanha, transforma pequenas conquistas em grandes vitórias. Mostra que cada criança tem limites, mas também capacidades, e que ser diferente não é ser menor. Inclusão não é palavra bonita em documentos, é prática diária, é envolver colegas, famílias, professores, todos, para que a escola seja realmente de todos.

O papel do professor, seja no 1.º Ciclo, seja na Educação Especial, é fazer a diferença. É olhar para além do currículo, dar ferramentas para a vida, ensinar a pensar, a sentir, a partilhar. É ser criativo, dinâmico, empático. É preparar pessoas, não apenas alunos. Porque no fim, cada criança que nos passa pelas mãos não será apenas estudante: será cidadão, será futuro.

NF 20.09.2025

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